domingo, 8 de Novembro de 2009

ATITUDES E ATRIBUIÇÕES

Quando entrei no meu blog, vi dois comentários necessitando de aprovação, a qual foi dada imediatamente.

Porém, o comentário feito por um Anónimo na tarde de 4 de Novembro de 2009, no meu post ATRIBUIÇÕES ERRADAS, de 9 AGO 2009, dizia o seguinte:

“Ouvi dizer que o senhor é o único professor no ISMAT que não fornece aos alunos, nem por «e-mail», a cópia dos «powerpoint» que apresenta nas aulas e que servem de suporte para as suas aulas.
Porquê? Qual o inconveniente de aceder ao pedido deles?
Faço esta pergunta num «comentário» porque também me disseram que era a sua preferência em relação ao e-mail.
Pode-me dar uma explicação?”


Embora pudesse responder ao comentário com um outro, preferi fazê-lo, com alguma demora através de um post porque o assunto diz respeito à minha boa ou má colaboração na docência que tenho vindo a exercer há cerca de dez anos, no ISMAT.

Por este motivo, resolvi conversar com um amigo meu, antigo colega da Faculdade, professor universitário agora em descanso, com mais 20 anos de serviço do que eu, para que me desse alguns conselhos sobre o assunto.

Quando lhe apresentei o post e o respectivo comentário, expus o modo como dou as aulas, mas ele resolveu manter comigo um diálogo que esclarecesse melhor aquilo que eu lhe estava a contar.

-- Tu não apresentas aos alunos o programa da disciplina?
-- Com certeza. Faço-o logo na primeira aula e também lhes digo o modo como vou fazer a avaliação de conhecimentos.

-- E a bibliografia?
-- Discrimino-a completamente.

-- Há livros para eles poderem estudar?
-- Como os essenciais são compilações que fui fazendo ao longo do tempo e estão publicadas, deixei na biblioteca pelo menos uma cópia de cada livrinho. Além disso, recomendo-lhes outros manuais que são por mim indicados na bibliografia.

-- Eles podem adquirir os livros que desejam se não quiserem sujeitar-se às vicissitudes da biblioteca?
-- Até eu lhes levo, de Lisboa, alguns livros, comprando-os a um «preço de autor».

-- E o que são os tais «powerpoint»?
-- São «apontamentos» resumidos que faço para mim, como ajuda para me orientar na aula, expor melhor a matéria e não me esquecer de coisa alguma. São como os antigos acetatos.

-- Tudo o que dizes está nos livros?
-- Absolutamente tudo, menos a «conversa» particular de cada aula e um ou outro exemplo elucidativo do qual me possa lembrar e que também não está nos tais «powerpoint».

-- Se lhes desses os «powerpoint» eles seriam capazes de responder às perguntas do exame?
-- Provavelmente não, porque às vezes, se eu não os reler antes das aulas, os mesmos podem não me dizer coisa alguma.

-- Será que eles querem que lhes leves a comida à boca?
-- Não sei.

-- Ainda te lembras dos tempos (1958) em que havia «sebentas» que tínhamos de decorar «ipsis verbis» para quase citar o número da página nas respostas dos exames? Isso não nos dava a possibilidade de pensar por nós ou contestar qualquer coisa que não achássemos correcta, deixando-nos na completa dependência do Professor Sabe-Tudo (e ninguém sabe mais do que ele). Eram os nossos tempos, mas fomos evoluindo aos poucos com o contacto mantido com os que se formaram no estrangeiro. Ainda bem.
-- Já no meu tempo de formatura (1975) as coisas estavam mudadas e nós tínhamos de ir às fontes buscar informação por iniciativa própria, geralmente em língua inglesa ou francesa, sem ficarmos na dependência do professor.

-- Acho que fazes muito bem, porque a entrega dos «powerpoint» pode deixá-los na tua dependência muito mais do que as sebentas que tinhamos de decorar. Agora, os teus livros devem ajudar muito se lhes deres a oportunidade de consultar o que desejam.
-- Essa liberdade é total. Os livros são apenas para lhes facilitar a vida e também para lhes dizer que, no exame, não vou fazer quaisquer perguntas fora dos mesmos.

-- Já estás a facilitar muito.
-- Quase que te garanto que se não lerem os livros recomendados, ou outros equivalentes e não tomarem notas nas aulas, de pouco lhes servirão os «powerpoint» que desejam. Talvez os outros professores preparem os «powerpoint» como se preparam os discursos. Os meus só servem para mim quando os releio e recordo a matéria antes de dar as aulas. E já que falas na comida, os meus não são comida para levar à boca mas sim algum alimento que deve ser utilizado com uma sonda que vá ter directamente ao estômago. Se os alunos não lerem mais nada, vão ficar à fome porque o alimento está nos livros e nos apontamentos que eles tirarem dos livros ou das aulas. Se não se habituarem a consultar os livros ou a assistir a todas as aulas, podem ter a sorte de acertar em algumas respostas, sem saberem coisa alguma da matéria. E depois, qual a quantidade de ciência que apreendem? O que vão fazer no futuro? Como se governarão na vida prática? Julgo que não haverá muitos que tenham papás ou padrinhos que lhes «arranjem» um bom lugar com o diploma que obtiverem.

-- Já agora, para que serve e de que trata o teu blog?
-- Destina-se a dar respostas a muitas pessoas que me põem problemas (tipo consultas) e até para poder explicar melhor aquilo que os alunos desejarem, se me quiserem fazer perguntas extra aulas. Já lhes disse que podem dispor do meu tempo, pelo menos uma ou duas horas antes das aulas, sempre que tiver disponibilidade para isso..

-- E eles fazem-te perguntas nesse tempo?
-- Quase nunca.

-- E já lhes falaste no blog?
-- Já. Até está mencionado na bibliografia que lhes dei.

-- Então, eu também vou consultar hoje o teu blog e ver os «powerpoint» e amanhã continuamos a conversa.

    *****************************************
-- Já li o teu blog e vi os tais «powerpoint» mas também gostava de saber se os alunos estão satisfeitos com as tuas aulas.
-- Há dez anos, quando comecei a dar aulas no ISMAT, pedi à administração que solicitasse dos alunos uma avaliação anónima (secreta) acerca da eficácia das minhas aulas, porque não gostaria de as dar se eles não gostassem das mesmas.

-- E qual foi o resultado?
-- Informaram-me que a maioria dos alunos gostava, avaliando-as acima do «normal». Suponho que fazem isso todos os anos.

-- Se a maioria deles até gosta das tuas aulas, coloca-te numa atitude defensiva e podes fazer a atribuição de que alguns até vão querer que sejas tu a responder às perguntas de avaliação que fizeres nos exames. Se quiseres ter a certeza disso, faz-lhes uma pergunta de verificação na próxima aula: “Quantos já consultaram o blog?” Se forem menos de 50%, podes estar certo de que com ou sem e-mail ou «powerpoint» vão ficar na mesma. Vão querer tirar o curso com o menor esforço possível, sem a preocupação de saber a matéria. Mas, garanto-te que nem um quarto dos alunos consultou o blog onde poderiam ter aprendido muito mais do que nos teus «powerpoint», que também vi ontem à noite.

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Depois desta explicação e dos conselhos que me foram dados pelo meu amigo, vou ver se na próxima aula faço a pergunta de verificação para me elucidar melhor. Ao meu amigo, agradeço sinceramente a conversa que me ajudou a perceber que estou com razão. Fornecer os «powerpoint» só pode prejudicar os alunos que conseguirão apreender melhor a matéria se estiverem com atenção nas aulas e tomarem apontamentos do que lhes interessar, ou lerem cuidadosamente os livros. Não desejo que o ensino se degrade. Pelo contrário, quero promover a sua melhoria e a boa qualidade na medida do que me for possível. «Bolonha» também exige isso.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

AUSÊNCIA DAS MÃES EM CASA E OBESIDADE


Um comentário ao meu post Autismo Entre Nós, de 31 Agosto 2009, feito por um anónimo, no dia 15 de Outubro corrente, diz o seguinte:
“Ouviu dizer que um estudo inglês descobriu que a obesidade está
 correlacionada com a ausência das mães em casa por causa
 do emprego?
 Qual a sua opinião?”



A minha resposta, sem conhecer esse estudo, mas vendo a reportagem apresentada na televisão, é muito simples e baseia-se nos conhecimentos sobre a modificação do comportamento.

1.  Qualquer ser animal e especialmente o humano, necessita de reforço, isto é, satisfação. Por isso, procura obtê-lo da maneira que lhe é mais fácil e económica. Em cada momento, cada um sente essa satisfação da maneira que lhe é peculiar, isto é, através de elogios, carinhos, honras, dinheiro, reconhecimento do seu trabalho, etc., que se traduz em reforço.
2.  Qualquer criança necessita de atenção, carinho e afectividade e isto até se verifica nos restantes seres animais. É por isso que as crias ficam nos primeiros tempos de vida, com os progenitores ou com a sua espécie até se autonomizarem e se tornarem adultos, obtendo destes os reforços adequados.
3.  Se não houver o carinho, o afecto e a atenção que proporcionem reforço, o ser humano pode eventualmente conseguir obter esse reforço que lhe é necessário através de diversas acções tais como comer, brincar, maltratar os outros, imaginar situações fantasiosas, fazer disparates para chamar a atenção, etc.
4.  O reforço obtém-se quando qualquer das acções equivalentes às enunciadas tiverem bom resultado e derem satisfação. É o reforço positivo.
5.  Quando situações semelhantes se repetirem e continuarem a dar reforço, especialmente o de razão variável ou aleatório, é provável que exista uma aprendizagem cada vez maior e mais alienante porque funciona para dar satisfação, que não é conseguida de outro modo.
6.  Quando a falta da mãe ou o pouco contacto com ela reduzir o carinho, o afecto e a atenção necessária, a comida pode funcionar em sua substituição, especialmente porque os pais, muitas vezes, dão guloseimas em vez do carinho e afectividade que são imprescindíveis. Assim, a falta de atenção dos pais pode ser substituída por presentes, uma boa refeição ou guloseimas. Também, o exemplo de consumo de guloseimas pelos pais pode muitas vezes servir como um modelo a ser imitado. Isto acontece frequentemente, com os pais que dizem aos filhos que os mesmos fazem mal. Obtido o reforço com estas comidas e com os modelos que os pais proporcionam, pode até haver a possibilidade de os filhos tentarem identificar-se com eles e até tentar superá-los.

Por isso, não admira que a obesidade tenha vindo a aumentar ao longo do tempo e que seja maior nos lares em que a «ausência» ou «desapego» dos pais em relação aos filhos seja também maior do que em qualquer outro contexto.

--  Se os pais mantiverem um bom contacto com os filhos;
--  se lhes derem conselhos acerca duma alimentação saudável;
--  se lhes proporcionarem exemplo e modelo adequados através dos seu comportamento;
--  se elogiarem os filhos e lhes prestarem maior atenção sempre que tiverem uma alimentação saudável;
é muito provável que esta correlação de chamada «ausência das mães» possa ser substancialmente reduzida, especialmente se o pai também «entrar no jogo» de educar os filhos com bons modelos e reforços.

Muitas vezes não é só a ausência, mas a falta de paciência para «aturar os filhos», depois de um dia de trabalho e «chatices», que ocasione o «desapego».

Por este motivo, todos os Governos, especialmente na Europa, têm de pensar muito bem no «equipamento social» chamado família dando-lhe boas condições para procriar e educar os filhos saudavelmente. O tempo e a qualidade para o bom aconpanhemento dos filhos pode ser crucial para o desenvolvimento saudável duma nação.

Se isso não acontecer e se este facto não for tomado em conta, em pouco tempo poderemos ter um mundo ocidental alienado, tecnologicamente avançado, delinquente, obeso e viciado.

Não se julgue que os vícios da droga, do álcool, da ganância, incluindo o de defraudar os outros, ou qualquer outro, como os actuais jogos de computador ou da lotaria não se situam nestes parâmetros. Basta ouvir as televisões a apresentarem outros estudos (informação dada ontem na televisão), que tiram conclusões a jusante como os efeitos que esses vícios ou alienações ocasionam. É necessário descobrir quais as causas que provocam o efeito, que é essa alienação ou vício. As pessoas vão buscar a satisfação naquilo que conseguirem fazer melhor e mais rapidamente para se sentirem felizes, embora não se possa dizer que o consigam ser, de facto.

A insatisfação sentida pelos que praticam
actos desviados moral e financeiramente,
são o reflexo disso.

Estamos todos inseridos numa cultura que prevalece como uma norma social a seguir. Não nos é estranho ver realçados os valores do dinheiro da aparente beleza, da confusão da satisfação da felicidade com os bens materiais e financeiros, privilégios e honrarias. Nesta cultura, as pessoas que não conseguem obter aquilo que a sociedade realça como fins a atingir, sente-se frustrada. Para obter a sensação de vencer, ensaia diversas actuações até imaginar que está a conseguir sair vencedora segundo os cânones sociais estabelecidos. Entretanto, foi executando comportamentos «desviados» que proporcionaram uma aprendizagem tão vincada e a longo prazo que é difícil de ser desaprendida com facilidade e até pode prejudicar a boa saúde física e mental. Esta actuação não é o resultado de um dom ou de uma predisposição inata mas sim duma capacidade adquirida com a aprendizagem naquela sociedade.
Senão, vejamos o que acontece em muitas sociedades primitivas em que a «gordura» ou a «competição» não é valorizada mas até é desaconselhada.

Para tanto, a «educação» é extremamente importante mesmo nas comunidades animais selvagens, onde as crias ficam muito tempo com os progenitores. Será que o mesmo acontece agora nos aglomerados humanos primitivos? E se olharmos para os «civilizados» podemos dizer o mesmo?

Tudo isto está cientificamente enquadrado e explicado em linguagem simples nos cinco pequenos volumes intitulados COMO MODIFICAR O COMPORTAMENTO, da Plátano Editora, bem como no volume SAÚDE MENTAL sem psicopatologia, da Calçada das Letras. Diversos posts anteriores trataram deste assunto respondendo a várias perguntas feitas pelos nossos interlocutores ou comentadores.
Com o contacto, cada vez mais reduzido estabelecido pelos pais (pai e mãe) com os filhos, é durante este importante tempo de educação que se adquirem muitos vícios que só tardiamente são «estudados» para se descobrirem os seus efeitos nocivos.
Depois, surgem as propostas para os combater com medidas extraordinárias de maior envergadura e menor eficácia do que as possíveis numa educação saudável desde a nascença, pelo menos, até à puberdade.

Espero que tenha conseguido dar a resposta possível ao meu comentador anónimo, a quem agradeço a colaboração prestada com o seu comentário oportuno.

sábado, 10 de Outubro de 2009

REEDUCAÇÃO DE DEFICIENTES



Fernanda Lima disse:
       “O meu filho, com 6 anos, apresenta dificuldades escolares e não sei o que fazer. Não consegue pronunciar muitas palavras e nem todas ficam bem pronunciadas. É irrequieto no seu comportamento e não consegue executar certos pedidos parecendo que não os entende. Uma vizinha disse que ele pode ser deficiente e aconselhou a ir a um psicólogo. O meu filho mais velho, de 16 anos, disse que eu vos podia perguntar o que fazer sem ter de pagar, porque as minhas dificuldades financeiras são grandes. Posso ter alguma ajuda?”
10 de Outubro de 2009 18:06



D. Fernanda Lima,
Acabei de ler o seu comentário, o qual prefiro a um e-mail, e vou tentar dar-lhe uma resposta rápida e resumida para satisfazer a sua provável dificuldade.
O conselho da sua vizinha de levar o seu filho a um psicólogo parece-me sensato e pelas poucas informações que a senhora me acabou de dar, julgo que ele não esteve em qualquer infantário. Se não, penso que já teria sido detectado qualquer défice que ele possa ter. Não era assim nos meus tempos, mas agora, quase todas as escolas anunciam que são acompanhadas por psicólogos.
Se o seu filho não esteve em qualquer infantário, como presumo, parece-me importante que a senhora saiba observá-lo com cuidado, quer para tomar as medidas que ache necessárias, quer para poder dar ao psicólogo as informações devidas para que a avaliação dele seja mais rápida e facilitada pelos esclarecimentos prestados. Além disso, mesmo que vá ser observado agora por um psicólogo, a sua acção em casa pode ser muito importante e facilitadora em todo o processo de reeducação, caso seja necessário.
Não consigo dar-lhe mais informações sem observar o seu filho, mas um dos meus antigos casos com crianças deficientes, apoiado em 1977, pode servir de guia como resposta ao seu pedido reforçado pelo seu filho mais velho.
Porém, como me parece que consulta os blogues, por si ou através do seu filho, aconselho a, antes de tudo, ver os meus posts:
Reforço do Comportamento Incompatível, de 20 de Agosto de 2008;
Dificuldades no Comportamento, de 20 de Agosto de 2008;
Modificação do Comportamento, de 26 de Agosto de 2008;
Dislexia, de 5 de Setembro de 2008;
O Valor do Reforço, de 16 de Janeiro de 2009.
Se quiser, pode também consultar o post A Pedagogia em Portugal, de 1 de Outubro de 2008.

Especificamente para a situação do seu filho, aconselho que leia, em primeiro lugar, com muito cuidado:
REEDUCAR COMO? (páginas 75 a 88), da Plátano Editora.
Em seguida, leia o resto desse livro ou releia-o e tire daí as suas conclusões a fim de poder observar melhor o seu filho, como se não fosse seu, tal como nós o fazemos.
Leia depois outros dois livros, também da Plátano:
SUCESSO ESCOLAR e
APOIO PSICOPEDAGÓGICO, a fim de poder descobrir se pode fazer algo para alterar a situação actual.
Se necessário, consulte também os 5 volumes de COMO MODIFICAR O COMPORTAMENTO, da Plátano.
Envolva o seu filho mais velho em todo este processo porque, sendo jovem e sensato, pode dar alguma ajuda substancial.
O rapaz do «caso» acima mencionado melhorou bastante quando teve a ajuda dos pais. Quando, ao fim de um ano do meu apoio, os pais «se esqueceram» de tomar parte na reeducação, esse rapaz piorou apesar de estar a frequentar uma escola especial. Agora, já adulto, fica sentado na varanda da sua casa a menear-se para frente e para trás.
Julgo que, por razões óbvias, não proponho a ajuda do seu marido.
Para a consulta dos livros, se ninguém lhos puder emprestar (por exemplo, Bibliotecas Municipais), pode socorrer-se das livrarias mais conhecidas ou, de preferência, utilizar a internet onde a Plátano tem a sua página. Neste blog, também estão indicados outros locais da internet onde os pode adquirir. Basta mencionar os livros de Mário de Noronha. Cada livro, dos sete que indiquei, deve custar, cerca de 10 euros ou menos. Uma primeira consulta não deve ficar por menos. Depois, terá os exames e as avaliações e, se necessária, a reeducação.
Dou-lhe estas informações, com urgência, porque me parece estar com certa pressa e surpreendida com a situação que não deseja ver prolongar-se por muito tempo. Por isso, garanto que a participação dos pais é extremamente importante. Leia com atenção o desfecho desse «caso». Se não tiver de consultar um psicólogo ou necessitar dele como apoio suplementar, vai ser extremamente económico em tempo e em finanças.
Fico aguardando notícias sobre o desenrolar dos acontecimentos.
Boa sorte.

segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

O AUTISMO ENTRE NÓS



O blog compincha.wordpress.com enviou-me a seguinte mensagem:

“Lembra-se que fizemos um comentário no seu post DESABAFO, de 1 de Outubro de 2008 e que depois, nós também fizemos um post, em 19 de Outubro, com o título MILAGREIROS E TRAPACEIROS, no nosso blog antigo http://compincha.blogspot.com?
Agora, se viu a reportagem especial da
SIC, na noite de 30 de Agosto, como psicólogo que se dedicou à reeducação de crianças com dificuldades, gostaríamos de saber qual a sua opinião sobre o assunto.
Com agradecimentos antecipados,

CãoPincha.”


Caros senhores CãoPincha:
Já vos tinha pedido para me deixarem descansar porque estou de férias. Mas, como esta resposta se vai basear em factos já passados e relatados há mais de 30 anos, vou transcrever aquilo que puder.

A notícia dada pelo canal 1 da RTP, na noite de 19 de Maio de 2008, de que o Sr. França, com um filho autista, tinha conseguido que técnicos estrangeiros viessem dar, em Portugal, um curso para treinar pessoas a lidar com essas crianças, fez-me relembrar o que se passara há mais de (30) anos e ocasionou o post DESABAFO, de 1 de Outubro de 2008.
Outra das razões para elaborar esse post foi verificar que nos casos descritos na literatura científica adequada, a diferença substancial entre nós e o estrangeiro se situa nos meios terapêuticos disponíveis. Um outro factor que talvez possa influenciar é a pouca informação daquilo que se faz em Portugal e, mais ainda, daquilo que é possível efectuar.

Os estrangeiros têm meios técnicos, materiais e financeiros muito mais avultados do que nós para publicarem as suas experiências,… a fim de nós as lermos com sofreguidão!

E depois, não fazemos coisa alguma a não ser «adquirir material» que fica depositado sem ninguém o utilizar ou conseguir manipular!

A ansiedade que existia nesse tempo (1977) acerca destes problemas bem como as preocupações, continuam a ser semelhantes (2009) e as possibilidades de solução já estariam a ser seguidas se houvesse um empenho mais acentuado dos pais e das entidades responsáveis.

Em Outubro de 2008, quando o ISMAT, em Portimão, me pediu para fazer uma intervenção sobre a minha prática clínica, fiz um pequeno sumário, com a ajuda do powerpoint e preparei um texto escrito, que foi distribuído por quem o desejou.
Nesse texto, com cerca de 10 folhas, está indicado que, especialmente em relação ao autismo, houve da nossa parte, pelo menos, três intervenções públicas em meios de comunicação social e que se mencionam a seguir:

PARQUE, Jul 1977: entrevista com Prof. Doutor Joe Morrow. (A aprendizagem dos «deficientes»)
PARQUE, Jul 1977: artigo (Podem os pais ajudar a educar os seus filhos autistas?)
ECOS DE BELÉM, Fev 1978: artigo (Crianças autistas têm associação em Belém)

Por uma questão de não sobrecarregar este post, apenas vou transcrever o artigo «Podem os pais ajudar a educar os seus filhos autistas?», publicado em Julho de 1977 no jornal mensal PARQUE, do Centro de Bem-Estar Social de Queluz, onde iríamos fazer um trabalho de investigação.
Essa investigação, baseada numa bem sucedida experiência piloto, iria englobar os pais na reeducação e reabilitação dos seus filhos deficientes.

Esta experiência piloto com um rapaz de 8 anos, está descrita no artigo Deficiência e Condicionamento Operante, publicada nas páginas 106 a 111, do nº 163, de ABR-JUN, de 1978, da Revista HOSPITALIDADE, da Casa De Saúde do Telhal.
Depois da acção limitada e impossível de continuar pelo psicólogo, por várias razões, a criança ingressou no ensino normal sem qualquer apoio durante um ano e, no ano seguinte, foi mandada para uma escola especial onde até conseguiu regredir. Actualmente, sentado numa varanda, só consegue executar comportamentos de auto-estimulação, sem qualquer sentido.
Na investigação pretendida, a proposta inicial do psicólogo foi:
a) envolvimento dos pais na reeducação;
b) um ano de trabalho em casa para a criança ser integrada numa escola «normal» com apoio dos psicólogo, reeducadora e pais, durante cerca de 5 anos;
c) preparação para poder estar a «trabalhar» num quiosque de jornais com apoio de outra pessoa mais responsável (provavelmente o pai, depois de aposentado).
Nada disso foi possível realizar por recusa dos pais em continuar a participar na co-reeducação.

Em resumo, esta nova experimentação e investigação de que estamos a falar, constaria da reeducação, durante um ano escolar, de 10 crianças com dificuldades várias e de frequentar uma escola «regular», utilizando como técnicos apenas com uma professora de integração a tempo inteiro, uma psicólogo em tempo parcial, duas auxiliares de acção reeducativa e duas mães. Todas essas mães não tinham qualquer emprego fora de casa e ficavam com os filhos quando eles não estavam na escola.
Todas as acções dos técnicos e auxiliares seriam filmadas e gravadas em fita magnética sonora para posterior visualização, audição, análise e crítica, propícia para a aprendizagem e verificação dos lapsos ou das acções correctas que tinham sido efectuadas. Serviriam também para futura aprendizagem.
A Fundação Gulbenkian comprometeu-se a custeá-la e até o Ministério da Educação se «dignou» apoiá-la destacando a professora de ensino integrado!

Não foi possível concretizar esta investigação porque os pais não se dispuseram a colaborar dizendo que qualquer intervenção deveria ser efectuada apenas pelos técnicos habilitados para isso.
Também não valia a pena efectuar a investigação sem a intervenção dos pais porque:
1) haveria necessidade de contratar mais duas auxiliares, o que não era possível por não haver meios financeiros para isso;
2) a substituição dos pais pelas auxiliares nos actos de reeducação, faria com que uma relação pais/filhos que se pretendia modificar em casa, não fosse possível por falta de modelagem e de treino dos pais;
3) não existiria um relacionamento saudável e reeducativo pais/filhos, que se desejava implementar, fazendo reduzir, consequentemente, a afectividade dispensada e o aumento de reforço que a criança poderia obter;
4) seria necessário adiar a investigação o tempo suficiente para treinar as auxiliares;
5) o rendimento ou o desempenho do comportamento das crianças seria muito menor, ou até nulo apesar do aumento das despesas, só por causa da recusa dos pais em comparticipar na investigação.

PODEM OS PAIS AJUDAR A
EDUCAR OS SEUS FILHOS AUTISTAS?

Pela nossa parte, não só dizemos que «podem», mas até acrescentamos que «devem», porque não existe melhor educador do que o meio ambiente familiar, quer os pais sejam iletrados, quer pouco instruídos.
A criança autista, como qualquer outra «deficiente», necessita de mais ajuda do que a «normal», para conseguir ultrapassar as dificuldades a que está submetida.
Rimland, citado por Davison e Neale, elaborou uma lista de dez condições que diz serem indispensáveis para que se possa considerar uma criança como autista. Vamos desrevâ-las sumariamente:

1.º - A manifestação do autismo é perfeitamente detectável nos três primeiros anos de vida.
2.º - A aparência da criança é boa e a saúde excelente.
3.º - Os traçados do EEG são normais.
4.º - Existe uma repulsa pelo contacto físico.
5.º - A criança apresenta necessidade de isolamento «autista».
6.º - Tem necessidade de manter tarefas ou actos rotineiros para auto-estimulação.
7.º - Existe graciosidade e agilidade na movimentação dos dedos da mão.
8.º - A ecolália e a inversão dos pronomes, são característicos.
9.º - Os pais são geralmente instruídos e com QI elevado, não tendo antecedentes familiares com distúrbios mentais.
10.º - Tem talento extraordinário numa área muito limitada e específica, enquanto apresenta atraso em todas as outras.

Supondo que uma criança consegue reunir as dez condições atrás descritas, é certo que poderemos dizer que é autista mas de nada servirá apenas c1assificá-la, se isso não servir para utilizarmos as técnicas mais eficientes para a ajudar a desenvolver as capacidades que são passíveis disso.

Reportando-nos a experiências realizadas nos E.U. A., dois psicólogos, Laura Schreibman e Robert Koegel, que trabalham em Universidades da área de Califórnia, dizem-nos que durante os vários anos de suas experiências, conseguiram que as crianças autistas, quaisquer que fossem as suas dificuldades, realizassem grandes progressos a ponto de continuarem a sua educação em escolas normais, desde que os pais e os professores fossem suficientemente treinados para ajudar os terapeutas profissionais.

Embora as crianças não fiquem completamente «curadas», a utilização sistemática das técnicas de modificação do comportamento, faz com que as pais possam suplementar a acção dos psicólogos e outros técnicos.
Para que se possam atingir os resultados de que nos falam, é necessário manter os seguintes cinco princípios:

a) - Definir os objectivos que a criança tem de atingir.
b) - Dar à criança instruções claras e sem possibilidade de ambiguidades.
c) - Ajudar a criança a dar a resposta correcta.
d) - Progredir lentamente em etapas sucessivas.
e) - Recompensar a criança imediatamente e de forma correcta, logo depois de se obter dela urna resposta certa.

Os psicólogos mantêm estes 5 princípios sempre que trabalham em situação clínica e terapêutica com as crianças, enquanto os pais os observam através de espelhos unidireccionais (one way screen).
Deste modo, os pais aprendem por observação (modelagem) e, colocados em situação terapêutica na própria clínica, são ajudados (facilitação social) pelos terapeutas a aperfeiçoarem a sua actuação (moldagem) que será de muita importância quando utilizada com a criança, em casa.
Além deste treino, os pais assistem a reuniões periódicas onde são esclarecidos em conjunto e onde podem pedir conselhos acerca de quaisquer dificuldades que surjam no seu contacto com os filhos.

Porém, em Inglaterra, o panorama é diferente e até há bem pouco tempo (1975) a colaboração dos pais era nula.
Os terapeutas faziam tudo, mas eram insuficientes.
Das 5.000 crianças autistas, apenas 800 tinham a sorte de frequentar escolas especiais, ficando as outras institucionalizadas na companhia das demais crianças com problemas psicóticos.
Somente há cerca de 6 anos (1968), duas psicólogas clínicas, Patricia Howlin e Rosemary Hemsley, iniciaram no Instituto de Psiquiatria, de Londres, uma experiência de envolvimento dos pais na educação dos filhos autistas e, em Manchester, outro programa de experiências está em curso (1978) com Dorothy Jefree e Roy Mc Conkey. Embora todo este processo de alterações ao nível da educação da criança autista seja longo e demorado e abranja pouquíssimas famílias, os investigadores esperam que não haja quem tenha de escrever a respeito de um filho autista, aquilo que um pai escreveu:
«Tanto quanto eu sei, Lorel, durante os seus 20 anos de internamento no Hospital, não obteve nada mais do que as três refeições diárias - além das drogas que tinham de ser experimentadas».

Em vez de gastarmos dinheiro do erário público com programas fantasiosos que figuram nas estatísticas sem um benefício real para a população, quando será que em Portugal seremos capazes de iniciar programas experimentais, sérios e com técnicos honestos e competentes?
O que nos interessa com estas linhas, é alertar os pais das crianças autistas ou com qualquer outra deficiência.

A Inglaterra, país muito mais rico do que o nosso, luta com falta de escolas especiais. Convém não esquecer que nós até lutamos com falta de escolas normais e nem nos próximos 10 anos (1978+10= 1988) conseguiremos ter escolas com as condições necessárias para todos.

Os investigadores americanos dizem: «o sucesso dos pais é impressionante porque apesar de serem amadores, tornam-se eficientes em poucas horas. Isto contradiz os anos de treino extensivo que se dá aos médicos e psicólogos, que ao longo dos anos têm vindo a tratar das crianças autistas».

A pouca experiência que temos nesta espécie de trabalho -- apoio à criança com dificuldades, quer seja «normal», quer «deficiente» -- dá-nos a impressão de que a boa participação dos pais na educação ou apoio aos filhos pode reduzir a 50% ou menos a acção ou participação do psicólogo ou de qualquer outro terapeuta. Outra vantagem que nos parece conveniente salientar, é a de que se obtêm resultados muito mais duradouros do que com a acção isolada do terapeuta. A generalização que se consegue, tanto no que respeita a pessoas (terapeuta - pais - familiares), como no que respeita ao local da terapia (consultório - casa - escola - sociedade), torna todas as acções terapêuticas duradouras, eficientes e vantajosas.

De 16 crianças autistas entre os 4 e os 7 anos de idade, 6 das quais completamente sem fala, todas com graves estereotipias e comportamentos de auto-estimulação, após 18 meses de treino de modificação do comportamento com uma professora, uma terapeuta e duas ajudantes, 10 conseguiram frequentar as escolas normais e 6 ficaram em escolas especiais para crianças autistas.
Estes resultados, obtidos com a colaboração dos pais, devem estimular os mesmos a tomar parte na educação dos filhos, quer normais quer deficientes, para que a sociedade de amanhã não ofereça ainda mais distorções e desigualdades do que a actual.

Enquanto não se conseguir esta participação activa e consciente, pouco teremos caminhado na senda do progresso.

Os dados para este artigo, foram extraídos do livro ABNORMAL PSYCHOLOGY, de Davison e Neale, 1974, e da revista PSYCHOLOGY TODAY, edição inglesa, nº 7, de Outubro de 1975.

Mário de Noronha / Zélia Elizabeth Feliciano de Noronha

(Página 9, de Julho de 1971, do PARQUE – algumas datas e sublinhados são nossos)


Depois do que ficou exposto e escrito há mais de 30 anos, será que ainda não temos em Portugal competências ou falta-nos o trabalho necessário e a vontade política de fazer qualquer coisa de válido?

Com esta resposta, espero que me deixem descansar um pouco depois de começar as provas extraordinárias e antes de recomeçar as aulas.
Mário de Noronha.

quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

AS SONDAGENS E AS PREVISÕES

O blog compincha.wordpress.com no seu post o TERRORISMO HERÓICO, deste mês, mostrou desejo que comentásse o facto da libertação, por razões humanitárias e de seu regresso à casa, como herói, de AlMegrahi, o terrorista líbio que ocasionou a explosão do avião de passageiros em Lokerbie, Escócia, provocando a morte de milhares de passageiros.
Posso comentar este acontecimento anvolvendo AlMegrahi apenas sob o ponto de vista da sua previsibilidade em Psicologia Social.
O Governo da Escócia deixou que, por razões humanitárias, um condenado fosse passar os seus últimos dias a casa e, provavelmente, nunca teve em mente quaisquer outras motivações a não ser o humanismo.
Contudo, a decisão deste acto humanitário não partiu espontaneamente do Governo da Escócia mas baseou-se em algum pedido feito pelo interessado. Interessa saber quem fez esse pedido e quem o apoiou? Com que intenções? Qual a razão de Khadaffi para não ter querido entregar inicialmente AlMegrahi à Justiça da Escócia? Que negociações e concessões se fizeram no momento da sua entrega? Quem as fez?
Provavelmente, esses mesmos protagonistas utilizaram agora argumentos semelhantes para conseguirem que a Justiça ou o Governo da Escócia deixassem ir AlMegrahi para casa, a fim de morrer em paz e não como os outros a quem ele provocou a morte, sem qualquer culpa dos próprios.
Se a recusa de sua entrega à Justiça da Escócia foi problemática, fazendo as atribuições necessárias, quem interveio nas negociações actuais deveria estar à espera que, neste momento, os mesmos protagonistas líbios tentassem tirar partido da situação. Esses meios de comunicação social são geralmente «controlados» pelo Estado. Por isso, era quase improvável que não utilizassem o regresso do condenado, humanitariamente libertado, como se fosse o «herói» duma vitória líbia.
Também, neste regresso a casa, como «vitória», largamente difundido pelos meios de comunicação social, com toda a probabilidade, não se deve ter feito qualquer menção às razões que levaram o Ocidente a libertá-lo, a seu pedido, para ir morrer em casa.
Verifica-se aqui que um simples acontecimento é difundido, em cada sítio com cores diferentes, sendo visto em locais diversos com cores que não são as originais.
Assim é algum mundo «democrático» tal como, provavelmente, seria o nosso há quase 60 anos! Alguém teria a possibilidade de saber, de certeza, a não ser por familiares, o que se passava na guerra das colónias? Quantos ficaram na Guiné «sem ninguém dar por isso» até há bem pouco tempo? E que notícias «estapafúrdias» foram difundidas «heroicamente» acerca da invasão de Goa pela União Indiana? Quantos militares portugueses «morreram» como foi difundido na época pelas estações de rádio e de televisão, «com cadáveres a boiar nas águas dos rios Mandovi e Zuari»? Os militares que lá estiveram que o digam. Por mim, que estava nessa ocasião em Angola, apanhei um susto de todo o tamanho e fiquei à espera, durante cerca de um mês, de notícias seguras da minha família. É assim em muitas «democracias»…
Se o Ocidente, que conhece bem a Líbia porque tem lá muitos interesses, quisesse que não houvesse especulações e aproveitamentos da parte dos líbios, deveria exigir, através dos negociadores que seguramente tomaram parte nesta questão, que cerca de duas semanas antes da «soltura», os meios de comunicação locais dessem a notícia de que dentro de duas semanas haveria a possibilidade de ser dada ao criminoso em cumprimento da sua pena, a seu pedido e apenas por razões humanitárias, a possibilidade de regressar a casa para passar os últimos dias antes de morrer devido à doença grave de que sofria. O Ocidente ficaria, então, à espera da difusão dessa notícia em tempo oportuno com controlo efectivo das acções tomadas pelos líbios, inclusive, do tipo de linguagem utilizado e notícias difundidas acerca do assunto. Deste modo, o povo líbio, através dos meios de comunicação social de sua confiança, saberia a versão do ocidente acerca da libertação do criminoso.
E os dirigentes líbios não saberiam dessa doença no momento em que entregaram AlMegrahi, depois de longos anos de espera? No momento da entrega, não teriam feito os seus cálculos sem os ocidentais se aperceberem disso?
É assim que se faz na previsão através das atribuições, tomando em conta toda a situação e as personalidades dos envolvidos.
Não é assim que se faz nas eleições? É por isso que as sondagens são importantes, inclusive por causa de possibilidade da sua manipulação em benefício próprio.

domingo, 9 de Agosto de 2009

AS ATRIBUIÇÕES ERRADAS

Para os senhores CãoPincha do compincha.wordpress.com

Acabei de tomar nota do vosso reparo feito no post OS ELEITOS, de 3 de Agosto corrente e até gostei do primeiro comentário que lhe foi feito pelo Observador Social, o qual acabei de ler.
Quando puder e tiver disposição para isso, vou fazer algumas observações neste novo post mas, antes de tudo, tenho de vos solicitar que, além do meu post O 25 DE ABRIL AINDA EXISTE?, de 24 de Abril último que vocês já comentaram, leiam também os posts GOVERNAR «BEM» NÃO É FÁCIL, de 22 de Fevereiro e AS ATRIBUÇÕES, de 19 de Fevereiro deste ano. Vão obter aí algumas ideias que defendo também como cidadão e não só como psicólogo.


Em relação às eleições, posso dizer-vos que aquilo em que nós votamos é na imagem de marca que nos impressiona mais, e que os candidatos querem apresentar. É o efeito de primazia e de posteridade que influencia muito uma atribuição para que exista uma mudança de atitude a favor do candidato. É por isso que todos os candidatos, praticamente em qualquer parte do mundo chamado «civilizado», se socorrem de especialistas que os ajudem a mostrar uma boa imagem para que os eleitores a escolham, do mesmo modo como poderão adquirir uma roupa de marca, um brinquedo caro, um computador ou um automóvel.
O resultado da aquisição é o voto que é depositado a favor desse candidato. A partir daí, o que ele fizer no futuro passa a ter menos importância do que aquilo que na realidade nós imaginamos que ele vai fazer. Assim, até pode acontecer que a «garantia de qualidade» por ele apresentada não seja verdadeira e que o votante se sinta defraudado na escolha feita. É o que acontece a maior parte das vezes, porque quase nenhum candidato consegue cumprir aquilo que prometeu e que, provavelmente, nunca pensou cumprir. Se não, passemos em revista as promessas «prometidas» e «não cumpridas» de muitos deles.
Quase nenhum dos antigos candidatos deve deixar de se evidenciar nesse escrutínio.

O grande problema é nós fazermos inferências ou «atribuições» a partir do que ouvimos nas promessas, sem termos o cuidado de recordar aquilo que se passou, às vezes, com o mesmo indivíduo ou com um seu correligionário. Se fizéssemos isso, teríamos mais dados fidedignos sobre o assunto. A vossa citação do ditado «Cesteiro que faz um cesto faz mil» parece-me adequada e até diria que muitos lobos vestem a pele de cordeiro na ocasião das eleições. E nós, deixamo-nos enganar apesar de lhes podermos ver as orelhas e o rabo.

Do mesmo modo, muitos idosos são enganados por burlões que se fazem passar por funcionários e até por beneméritos. E a Polícia, faz os possíveis por os ajudar a não se deixarem enganar mas, pouco pode fazer para «apanhar» os «malfeitores»…
No mundo financeiro, vimos que a ansiedade de obter algum lucro extra nas economias existentes pode dar mau resultado apesar de os gerentes dos estabelecimentos contactados aparentarem uma credibilidade acima de toda a suspeita. Não é por acaso que se instituíram os «off-shores».

Para não sermos iludidos, é importante a nossa atribuição e a inferência que fazemos em relação a uma determinada entidade, organização ou valor do objecto.
Se não fosse assim, como se venderiam em muito maior quantidade coisas que quase não têm valor, mas beneficiam duma promoção e publicidade muito bem feita, do que outras de muito mais valor mas que não têm a mesma promoção? Isto acontece com roupa, electrodomésticos, bijutaria, automóveis, casas e muitas outras coisas que utilizamos no nosso dia-a-dia.

Com os candidatos a cargos políticos ou públicos também acontece o mesmo.
Nós, como «patrões», contratamo-los ingenuamente pelo aspecto que aparentam e pelas promessas que fazem, sem ver o seu verdadeiro currículo e se os diplomas apresentados são verdadeiros ou forjados. A ideia de conhecermos os candidatos nos seus hábitos e costumes, seu passado, família, vizinhança, amizades, filiações, património, etc. é muito útil para conseguirmos fazer uma atribuição correcta. Os meios de comunicação social poderiam de facto dar uma grande ajuda nesse aspecto visto que conseguem fazer uma investigação exaustiva e séria sobre o assunto, porque os candidatos sérios a merecem, embora também estes necessitem de apresentar uma boa imagem.
Hoje em dia, basta reparar que os «detractores da gravata» e do «bom aspecto fascista» logo depois do «25 de Abril», são os primeiros a apresentarem-se devidamente «paramentados», às vezes, até a rivalizar com aqueles que nunca desprezaram a gravata por uma questão de hábito. São tempos e costumes de que vale a pena tomar nota ao fazer a escolha de quem nos vai governar pelo menos durante 4 anos.
Depois de eles estarem no poder os nossos arrependimentos serão tardios.


Por este motivo, também concordo com a vossa ideia de que deve existir no boletim de voto um quadradinho em que o eleitor possa colocar uma cruzinha para dizer que não concorda com qualquer dos candidatos propostos. Talvez assim até fosse possível aumentar o número de votantes conscientes e desejosos de intensificar o sistema democrático reduzindo o número dos abstencionistas, porque as desilusões dos votantes sérios com a governação actual é tão grande que não dá vontade de ir votar para sofrer mais um engano. Daí o comportamento de não participar em mais uma farsa montada pelos «lobbies» existentes. Como foram eles que «investiram» grande parte do dinheiro das «campanhas», que são também à custa do povo, querem tirar o benefídio do seu investimento a todo o custo. Assim, o povo todo é que não tira. Talvez uma parte muito reduzida como acontecia nos tempos antigos.

Também no mundo empresarial, qualquer candidato a emprego se preocupa em apresentar o currículo com um bom aspecto e esmera-se no momento de se submeter a uma entrevista. O entrevistador é que tem de separar o trigo do joio e descobrir a «verdade». É o que tem de fazer todo o votante. Não é isso que deve fazer também uma pessoa que sente a barriga inchada e a deseja desinchar? Acreditar que o iogurte «actívia» irá resolver o problema em poucos dias, pode provocar uma desilusão semelhante à de votar no candidato errado. A imagem que o anúncio quer provocar é a de um alimento que «resolve rapidamente a dificuldade do estômago». Quase sempre é uma «inverdade» que ajuda a vender mais iogurtes desse tipo mas não resolve, quase nunca, o problema tal como é anunciado.
Nas eleições podemos prenunciar quase o mesmo.

Também, se as nossas atribuições forem mal feitas, podemos ir tomar uma refeição num determinado restaurante só porque tem boa aparência, para depois ficarmos arrependidos com a escolha. Depois de «enfiar o barrete» não há nada a fazer a não ser tentar não cair no mesmo logro. O mesmo pode não acontecer nas eleições porque os eleitos conseguem estar lá muito tempo, embora andem «às contas» com a Justiça. Enquanto não forem condenados e estejam a cumprir a pena, podem continuar a fazer, com ou sem ajuda de muitos comparsas, qualquer «trafulhice» que os tenha tornado suspeitos.

Qual a razão de não nos precavermos contra as más práticas de que muitos se tornaram actores principais?
Não conseguimos avaliar até ao momento as acções de governos dos diversos partidos? Não conseguimos avaliar a actuação nas nossas autarquias?
Não conhecemos os seus protagonistas pelo que fizeram, deixaram de fazer, prometeram, não cumpriram, enganaram, roubaram, ou melhor dizendo, desviaram, satisfizeram--nos, ficaram aquém da expectativa, desiludiram, fugiram para não cumprir o prometido, pensando apenas em si próprios ou nas suas carreiras?
O que se passa de francamente desagradável, manipulador ou a exigir conformismo no interior dos diversos partidos para que até os militantes venham publicamente denunciar comportamentos de prepotência, favoritismo, rivalidades anti-democráticas, etc.?
Exemplos não faltam com tantas novidades que são despoletadas quase todos os dias nos meios de comunicação social. É verdade que pode haver muita especulação e vedetismo mas também não existe fumo sem fogo e o comportamento dos que se dizem inocentes, coerentes, democratas, pluralistas, competentes, etc. deixa muito a desejar, especialmente no que toca a explicar devidamente e sem sombra de dúvidas aquilo que se passou.

Portanto, o que em Psicologia Social se pode tentar alertar é que as pessoas devem ter muito cuidado ao fazer as atribuições necessárias para poderem eleger quem acham mais adequado, tentando coligir e utilizar , para isso, todos os dados disponíveis dos registos passados e presentes e sem ligar muita importância aos meios de comunicação social que irão influenciar o eleitorado em favor do seu «eleito».
É por isso que, para qualquer candidato a «imagem» é muito importante.
É o mesmo que se deve fazer na aquisição de qualquer coisa valiosa, de longa duração e que não tenha uma boa garantia de substituição de peças ou de manutenção.
Suponho que, com este arrazoado, respondi minimamente à observação feita concordando, em grande parte, com a vossa ideia.

Boas eleições.

domingo, 19 de Julho de 2009

AS RESPONSABILIDADES DOS PAIS


“Já viste os nossos dois últimos posts? Não fizeste qualquer comentário! Gostaríamos de saber a tua opinião como psicólogo. Também gostaríamos de ouvir a opinião sobre a petição on-line em relação às multas a serem aplicadas aos pais quando os filhos prevaricam na escola. No teu blog, que visitamos frequentemente, não estamos a ver qualquer intervenção. O que é que se passa?
CãoPincha”


Caros CãoPincha,
Em relação ao e-mail acima transcrito, posso dizer muito simplesmente que não fui visitar o vosso blog porque estive bastante ocupado com a preparação de provas e realização dos exames, além de que, também não recebi, entretanto, qualquer pedido de esclarecimento que me obrigasse a intervir com um novo post. Por isso, esta resposta vai ser a primeira intervenção porque estive, hoje de manhã, a ouvir a Antena 2 sobre este assunto de imensa importância para todos nós e para o futuro.
A sociedade de amanhã vai ser constituída pelos jovens de hoje e pelas crianças que ainda estão por nascer. Todas elas têm o direito à alimentação, alojamento, afecto, educação, bem-estar que devem ser obtidos, em primeiro lugar, na própria família. Como pode a família escusar-se às responsabilidades que ela própria criou com a existência de um novo ser? Quem toma conta e se responsabiliza por esse ser e pelos seus actos inadvertida ou deliberadamente impróprios? Até os donos de quaisquer animais domésticos são responsabilizados pelos comportamentos inadequados dos mesmos porque estes não podem ser responsabilizados. Qual a razão de não se responsabilizarem os pais enquanto os filhos não têm responsabilidade própria?
Para os outros animais irracionais existe a domesticação e treino, até quanto aos hábitos de higiene. Para os humanos temos a educação que se inicia desde o berço e continua durante muitos mais anos do que nos não-humanos porque tanto o período da sua socialização e responsabilização como o de duração de vida é muito mais alargado.
Impingir às escolas e a outros centros de educação essa responsabilidade, que começa muito mais tarde do que a interacção com a própria família onde todas as crianças passam muito mais tempo do que na escola, é «lançar a batata quente» para as mãos daqueles que estão em desvantagem.
A educação, que é a base fundamental para a estruturação da personalidade e da socialização, baseia-se essencialmente na estimulação que o «meio ambiente» proporciona através dos instrumentos disponíveis que são os estímulos, incentivos, modelagens, moldagens, reforços e identificações «manipulados» pelos pais ou pela família desde que a criança nasce. Isto continua até ela ser responsável e se transformar num cidadão útil para si e para a sua comunidade ou, ao contrário, tornar-se um autêntico «parasita» como os muitos que infelizmente passamos a conhecer em qualquer sociedade.
Esta responsabilização não pode limitar-se ao pagamento de multas pelo mau comportamento dos educandos como se faz com um vulgar estacionamento irregular dum veículo automóvel. Passa antes pela garantia de ajuda dos mais responsáveis, incluindo o Estado e os seus dirigentes que, com o seu exemplo, conselhos, incentivos, prémios, castigos e outros «instrumentos» necessários, poderão tornar os mais novos suficientemente responsáveis. Estes devem ser capazes de se tornar hábeis e saudáveis para que a sociedade de amanhã seja mais útil, humana, progressiva e feliz do que a actual, onde a cada instante se depara com a ganância dos mais poderosos, o que até nem acontece no mundo animal irracional.
Basta dar um golpe de vista mais atento por qualquer sociedade chamada «civilizada» que vai progredindo nos bens materiais e formas de dominação económica, psicológica, física, ideológica. As tentativas de contra-dominação ou subversão, divergem cada vez mais das leis naturais segundo as quais se regem algumas sociedades primitivas onde a nossa «civilização» ainda não chegou. Infelizmente, não só as famílias mas ainda as televisões dão, constante e insistentemente, exemplos que ajudam a difundir modelos de identificação cada vez mais nefastos para o bom desenvolvimento psicológico numa sociedade humanizada.
Temos de reverter esta situação.
Por isso, acho muito bem que, segundo os ensinamentos da psicologia e do desenvolvimento humano, os pais e os familiares mais directos sejam sempre responsabilizados e ajudados a educar quem devem, da maneira mais adequada possível, para que o mundo possa mudar e progredir num sentido mais humanista e menos ganancioso do que agora.
Tenhamos o bom senso de aprender com o passado para precaver um presente e um futuro melhor do que o actual para os nossos descendentes.
Os ensinamentos de Psicologia devem servir para isso.
Esta resposta pode parecer um pouco moralista mas um praticante da Psicologia tem de ter uma determinada ética na utilização dos conhecimentos que possui e difunde do mesmo modo como um médico deve ter ética suficiente ao lidar com receitas que podem ser benéficas para uns e maléficas para outros, pelo menos em determinados momentos e em doses inadequadas.
Em quaisquer circunstâncias, é à família que cabe a difícil tarefa de preparar um indivíduo para a plena cidadania com os meios simples de que dispõe: o seu exemplo, os meios de castigo e elogio, os ideais e a afectividade, a ser utilizados com o bom senso e a responsabilidade que esta magna tarefa exige.

domingo, 21 de Junho de 2009

SER PERSEVERANTE!



No seu comentário, de 20 de Junho, ao post PROFILAXIA e PSICOTERAPIA na DEPRESSÃO, Frederica disse...
“Como disse, comecei a fazer o relaxamento logo com as indicações do post. Entretanto, já li os livros que consegui obter pela INTERNET, nos endereços indicados. Entusiasmei-me e não pude esperar pelos amigos. Assim, pelo menos tenho-os sempre à mão.Estou a conseguir resultados que me entusiasmam.Gostava de saber o que aconteceu com o Antunes já que o seu livro ainda vai levar algum tempo a ser publicado.Veja se me faz a vontade já que me ajudou bastante com as informações prestadas até agora.Muito obrigada. Fico à espera.
20 de Junho de 2009 12:23”



Para satisfazer a vontade de Frederica que diz já estar a obter algum sucesso, além de ser mais uma forma de a motivar a persistir firmemente na auto terapia, vou transcrever alguns excertos do livro ACREDITA EM TI. SÊ PERSEVERANTE, à espera de publicação, sobre a auto terapia efectuada pelo Antunes, cujo «problema» começou com o insucesso escolar da filha:
Por estes excertos também se verifica a «dificuldade» em obter «convencionalmente» os livros em qualquer livraria e a actual facilidade em utilizar a INTERNET para a sua rápida e cómoda aquisição.
Desejo a continuação da boa sorte.

“Para que este
quase relato do Antunes fique realçado, é apresentado em itálico, com as devidas separações, em capítulos que tiveram os títulos julgados mais adequados para se enquadrarem na sequência deste livro.
****
“Incentivado pelos resultados obtidos (isso seria, de facto, o auto-reforço?), comecei a ler cada vez mais e, entretanto, não deixei de prestar muita atenção à minha filha e de lhe dar o apoio psicopedagógico indispensável. Procurei os livros que pretendia em relação à «Modificação do Comportamento» e senti alguma decepção por não conseguir todos os que queria na FNAC, na Bertrand ou em qualquer outra livraria mais conhecida do Porto. Umas livrarias tinham alguns livros enquanto outras tinham outros e limitavam-se a dizer que os podiam encomendar à editora. Resolvi então telefonar à Plátano Editora e encomendar todos os livros que me interessavam, solicitando que os enviasse com urgência. De Domingo para Quarta-feira recebi-os todos em casa, sem qualquer incómodo em ter de os procurar nas prateleiras das livrarias. Suponho que é isso que vou fazer no futuro e, se calhar, até me vou servir da Internet, do fax ou do e.mail”.
*****
“-- Como foi possível isto tudo? – perguntei-lhe, meio surpreendido.
-- Julgas que não li coisa alguma e que não pratiquei aquilo que tu rascunhaste na auto terapia? – foi a pergunta com que me respondeu.
O Antunes, seis anos mais novo do que eu, tinha sido meu colega na Faculdade de Direito e um dos melhores alunos. Passara o 1º ano com a média de 15 valores (naquele tempo!) enquanto eu era obrigado a continuar na tropa. Por isso, tinha-lhe perdido o rasto até saber, cerca de dez anos mais tarde, que fora obrigado a interromper os estudos porque lhe falecera o pai. Por isso, teve de deixar a Faculdade e, logicamente, foi cumprir o serviço militar obrigatório. Filho único de um vendedor de sucesso e de uma dona de casa, sofreu um rude golpe quando começou a cumprir, em Aveiro, o serviço militar obrigatório, ao qual «quase» nenhum cidadão português residente em Portugal conseguiu furtar-se naqueles tempos. O pai tinha uma vida desafogada porque ganhava bem com as comissões nas vendas. Comia e bebia bem em grandes almoçaradas com os clientes, mas passava «sacramentalmente» todas noites e fins-de-semana em casa com a «patroa». Fumava exageradamente cigarilhas caras. Com os excessos cometidos, uma doença súbita e maligna em que o cancro minou todos os órgãos vitais, dois meses foram o suficiente para ele deixar em sua casa um órfão e uma viúva, sem quaisquer meios de subsistência porque a pensão de sobrevivência era ridícula e não havia economias acumuladas apesar dos vários anos de trabalho bem remunerado.
Por isso, o Antunes, «sem cunhas», só não foi mandado para o Ultramar e conseguiu ficar em Portugal porque era órfão de pai, filho único e tinha de dar apoio à mãe, praticamente na indigência. Depois, por causa das dificuldades financeiras muito evidentes, não recomeçou os estudos mas conseguiu um lugar numa instituição pára-bancária no Porto, onde se fixou após o casamento e pouco depois da morte da mãe que também fora «mal habituada» pelo pai a não se precaver na comida e na dieta indispensável. Com o nível intelectual que o Antunes possuía, os negócios financeiros não lhe pareceram difíceis e continuou a orientá-los sempre, apesar de desagradado com a interrupção do curso que já não podia retomar por causa do horário quase ininterrupto que devia manter na financeira.
Como era um rapaz que sempre se preocupara com os estudos e com o bom desempenho, mesmo depois de casado com uma rapariga que conhecera desde os tempos em que ia passar as férias a Vila Real de Santo António, não se apercebeu de que é muito importante a dedicação à família e o acompanhamento dos filhos. Eram assuntos pouco importantes para ele porque o pai também passava muito tempo fora de casa como vendedor e ele habituara-se a ter sempre a companhia da mãe que o incitava a estudar para conseguir um bom emprego e não ter de trabalhar muito como o pai. Com o bom nível intelectual que possuía, tudo isso fora fácil de aceitar até ter a desilusão de não poder continuar o curso com a morte súbita do pai.
-- Sabes que fiquei muito frustrado com isto tudo? – perguntou-me.
Tinha acabado de ouvir, muito surpreendido, a história da sua vida que, para mim, foi uma autêntica revelação. Comecei a pensar que o Antunes podia revelar-me mais alguma coisa não só sobre a sua vida mas ainda sobre a sua súbita «transformação». Isto deu-me um certo ânimo e comecei a sorrir. O Antunes olhou profundamente para mim quase que a gozar-me e, com uma forte gargalhada, perguntou:
-- Já estás a pensar?
-- Pensar em quê?
-- Que te vou relatar a história da minha auto terapia!
Muito espantado com esta exclamação, perguntei:
-- Como é que adivinhaste?
-- Não é necessário ser-se psicólogo para adivinhar isto. “Quem tem cara de investidor?” “Quem tem conversa de aldrabão?” “Quem não tem «estaleca» para fazer negócio?”, são perguntas às quais temos de responder, quase de imediato, na financeira. Se falharmos, podemos não ter o êxito desejado e necessário! Porque julgas tu que eles me querem na financeira? Conhecendo como te conheci durante um longo ano lectivo enquanto te «esgueiravas» da tropa para correres frequentemente para a Faculdade e lendo agora os teus livros, não é muito difícil calcular que desejas também a minha história.
-- Acertaste – respondi.
-- Pois, prevendo isto, trouxe-te a história por escrito para conseguirmos conversar sobre outras coisas e poderes dar-me mais alguns conselhos e informações úteis. Ficou na mala do carro para não teres a oportunidade de lhe deitares agora um rabo de olho indiscreto e inoportuno. Também te posso garantir que até publicares o livro que estás a preparar, vou deixar-te informado de tudo aquilo que acontecer. Podes contar comigo para tudo, até para te dar os últimos momentos possíveis do «caso» que vais contar. Mas agora, vamos continuar o nosso bate-papo.”
****
“De repente, dei comigo a pensar que todo o dinheiro que acumulara não serviria de nada se a minha filha fizesse um mau casamento e tivesse a sua família desorganizada. Isso aterrorizou-me um pouco e comecei a calcular os benefícios que agora estava a tirar apenas com uma ligeira mudança da situação total e da minha nova visão do futuro. De pensamento em pensamento dei comigo a compreender seriamente aquilo que é o auto-reforço. Comecei a ficar cada vez mais satisfeito comigo próprio porque via e sentia as vantagens que estava a conseguir com o meu novo comportamento.”
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“Logo que o comecei, parece que fiquei a «divagar» sobre o conteúdo destes dois temas e a pensar que seria muito importante utilizar essa «aprendizagem social» para fazer com que os mais novos conseguissem ter comportamentos menos agressivos e mais «civilizados» e humanos. Em consequência desta «divagação» surgiram na minha mente várias perguntas:
-- As crianças serão agressivas porque se sentem inferiorizadas?
-- A agressão será uma resposta contra a frustração?
-- Será algum mecanismo de defesa ou de compensação?
-- Que relacionamento terão as crianças com os seus progenitores?
-- Que tipo de comportamentos terão eles?
-- Que modelos estarão a proporcionar aos seus descendentes?
-- Que espécie de identificações serão possíveis nestas circunstâncias?
-- Que reforço vicariante estarão as crianças a obter nos filmes?
-- Sexo, violência, pornografia, chantagem não faltam nos filmes que, muitas vezes, os pais vêem (com agrado dissimulado) mas dizem aos filhos que não os devem ver. Se os pais vêem, porque não irão também eles fazer o mesmo?
-- Que modelos estaremos a proporcionar à nossa filha? Pai distante e mãe preocupada?
-- E que interacção estaremos a manter?
-- Ela não teria dado já uma resposta eloquente em relação a estas dúvidas apenas uma semana depois de eu ter iniciado o seu «apoio psicopedagógico»?
-- O que teria de fazer para aumentar esse efeito já iniciado na minha filha?”
****
“Não consegui «pensar» mais porque parece que entrei num sono profundo.”
****
“No dia seguinte, quando acordei, estava bem disposto e com uma profunda motivação para prosseguir aquilo que já tinha começado. Se todos os outros tinham conseguido «avançar» porque não conseguiria eu? De facto «Sê perseverante», tinha a sua razão de ser!”

segunda-feira, 25 de Maio de 2009

RESPOSTA A UM OUTRO COMENTÁRIO

Vendo o segundo Comentário feito por um Anónimo ao post PSICANÁLISE, posso dizer que este blog se destina essencialmente a falar de PSICOLOGIA, sendo tudo o resto acessório. Não se destina a falar em legislação ou em desvendar a veracidade dos factos. No caso específico do post, interessou-me mais fazer a distinção entre a técnica terapêutica da Psicanálise e a de Imaginação Orientada que até pode funcionar como profiláctica e ser «manipulada», em grande parte, pelo próprio.
Isto quer dizer que os factos mencionados, embora verdadeiros, não têm interesse relevante. Interessa saber o modo e a razão porque surgiram «na cabeça» da pessoa e em que momento, bem como a maneira como a «fazem funcionar». O mais importante é o modo como as pessoas sentem e reagem a certos acontecimentos, a possibilidade de alguns «traumatismos» poderem desorientar a vida do indivíduo, assim como a profilaxia ou psicoterapia que se pode fazer em relação aos mesmos. Foi neste contexto que esses factos foram mencionados, não muito abertamente, mas podem ser perfeitamente explicados oralmente se alguém tiver interesse nisso, de acordo com as minhas possibilidades.
A atribuição que faço em ralação ao comentador anónimo é a de se tratar de uma pessoa bastante versada em assuntos militares.
Por enquanto, a um anónimo, e muito particularmente num blog, posso apenas dizer que, pedindo exoneração do meu cargo de Conservador interino da Biblioteca Nacional de Goa, em Nov. de 1957, entrei imediatamente para a Força Aérea, como voluntário, para o curso de pilotagem, aos 23 anos, com a possibilidade de, ao fim de 4 anos, poder ingressar nos TAIP.
Chumbei no curso de pilotagem de P1/58, não interessa porquê, e ingressei no NAV 1/58 (navegadores) que terminei em 3º lugar num grupo de 10.
No Verão de 1960, pouco antes de terminar os 4 anos de serviço militar, apesar de não ter querido ir a Águeda para ser Oficial do Quadro Permanente, tive de resolver o dilema entre ser nomeado para Angola por vontade do futuro Comandante da Base, ou oferecer-me como voluntário para Angola e entrar imediatamente no Quadro Permanente de Pilotos-Navegadores. Optei pela segunda hipótese, mas entrei para o Quadro bastante mais tarde.
Fiquei cerca de 4 anos em tenente e, quando fui tirar o curso de promoção a capitão, realizado em três grupos, tive como colegas de curso dois Generais, actualmente na reserva ou reforma, um deles ex-CEMFA e outro, com «direito à indignação», ex-Chefe do Estado Maior das Forças Armadas.
Quando estive na Base dos Açores, como Oficial do Quadro Permanente, tinha 2 anos de Angola, mais 2 anos do Montijo e quase 4 anos dos Açores. Não seria possível optar por outra situação ao fim de 8 anos de serviço no Quadro Permanente?
Entretanto, no meu tempo, houve muitas coisas que «aconteceram pontualmente», talvez por «conveniência de serviço», e que não interessa aqui mencionar porque não são do âmbito da Psicologia. Houve pessoal do Quadro Permanente que ficasse em comissão de serviço em diversos Organismos estatais ou particulares, quem conseguisse passar para o Quadro do Complemento e ir trabalhar fora da Força Aérea, quem tivesse autorização para se matricular na Faculdade e quem conseguisse autorização para acumular outro serviço além do da Força Aérea (o que consegui apenas nos dois últimos anos quando estava em tratamento psiquiátrico).
Contudo, mais uma vez friso que no blog interessam mais as percepções das pessoas, o modo como elas as encaram, as atribuições que são obrigadas a fazer e a possibilidade que existe em se efectuar uma profilaxia para que as mesmas não funcionem como traumatismos no sentido negativo.
A recordação do conhecimento do simples facto de que um oficial superior navegador tinha no seu currículo uma licenciatura em História tirada durante a sua permanência na Força Aérea, fez-me lembrar que três vezes me tinha sido negada autorização para continuar o curso de Direito no qual me matriculara em 1958. Depois, foi o resto do rol das recordações (subjectivas).
Como outro exemplo, posso dizer que a palavra «camarada», embora a aceite com toda a naturalidade, provoca-me uma certa repulsa porque além de vários acontecimentos anteriores, até o meu estágio profissional de Psicologia foi supervisado por «camarada» que mais tarde me «boicotou», em conjunto com outro «camarada», a minha investigação em neuropsicologia, depois de um ano de trabalho árduo. Contudo, embora eu não pertença a qualquer «confraria» damo-nos todos, aparentemente, muito bem.
Se quisesse ir para TAP tê-lo-ia feito depois de passar à reserva, pela Junta de Saúde de 22 de Abril de 1974. Mas, nessa ocasião, estava muito mais empenhado em tirar um curso superior (sem qualquer autorização, por ser particular) cuja possibilidade me tinha sido negada durante a permanência de quase 17 anos na Força Aérea.
Agora, interessa-me mais a Psicologia e, especialmente, a Psicoterapia.

segunda-feira, 18 de Maio de 2009

PSICANÁLISE

Há tempos, um dos meus alunos perguntou-me qual a razão por que eu não dizia bem da psicanálise.
A minha resposta, muito simples, baseia-se na possibilidade de, repentinamente, o psicanalista, baseado numa recordação do analisado, poder fazer uma observação ou intervenção muito pessoal, quase sempre bem aceite pelo analisado e que pode não se coadunar com a sua própria vida, levando-o a aderir a um sistema valorativo muito diverso.
Deste modo, passa a não ser uma pergunta nem uma hipótese mas sim uma espécie de conclusão do psicanalista relativa a si próprio, baseada na recordação de vida do analisado. O que pode acontecer a partir daí? O analisado pode tentar adquirir novos valores não coincidentes com a sua personalidade.

Este tema de reflexão, mais do que uma resposta a uma pergunta dum aluno, foi aflorado em mim por um acontecimento muito simples que avoquei na minha imaginação orientada depois de um dia cansativo e um relaxamento profundo.
Tinha acabado de assistir à primeira parte do encontro de Navegadores da Força Aérea Portuguesa, 50 anos depois do meu curso, na Base Aérea de Sintra e tinha ficado a rever um pequeno excerto de filmagens feitas no 6º Encontro de Navegadores realizado na Base de Sintra, em 2002, para entrega dos «brevets» de navegador solicitados por mim, atribuídos por despacho do 2º SCEMFA em 1963, e conferidos, com outros números, passados apenas quase 40 anos! Entretanto, alguns desses navegadores já morreram.
A conferência de um navegador, oficial superior, que, em 2002, era capitão e tinha no seu currículo uma licenciatura em História tirada durante a sua permanência na Força Aérea, fez-me lembrar que três vezes me tinha sido negada autorização para continuar o curso de Direito no qual me matriculara em 1958. As razões eram várias: tinha sido colocado nos Açores ou em Angola e não podia frequentar as aulas, ou estava empenhado em missões de serviço nos territórios ultramarinos!
A possibilidade de ser contratado por uma companhia de aviação civil estrangeira também me foi subtilmente cortada e, quando um dia, consegui ir falar com o responsável da TAP a fim de lhe pedir que me fizesse testes para saber se poderia ingressar na mesma, recebi uma resposta que me surpreendeu bastante e é mais ou menos a seguinte:
-- Não precisamos dos vossos testes para nada. Nós conhecemos o vosso currículo. A sua maior dificuldade deve ser na saída da Força Aérea. Se conseguir isso, no dia seguinte pode vir ter connosco.
Ia alegre e satisfeito quando me encontrei com um «camarada» que se admirou de me ver tão bem disposto em contraposição com o meu permanente mau humor. Julgando que ele era de confiança, relatei o sucedido e confessei que me sentia muito feliz e que, de regresso aos Açores, iria transmitir a boa notícia à minha mulher.
Qual não foi o meu espanto, quando no momento da aterragem nas Lajes, estava um soldado à minha espera para me dizer que tinha de ir falar urgentemente ao 2º Comandante da Unidade. Maior ainda foi a surpresa quando esse Comandante me disse ter recebido um «rádio» para eu me apresentar urgentemente nos Serviços de Saúde para a revisão necessária visto ter sido nomeado, por essa via, para Angola. Fiquei completamente transtornado porque além de poder ir para a TAP, onde ganharia o quádruplo ou mais com muito menos serviço, também esperava continuar o curso de Direito.
Mas a saga ou a «indignação» não acabou aqui. Quando cheguei a Angola e tive de me apresentar no Comando, o Chefe do Estado-Maior (por acaso oriundo da Marinha), meu velho conhecido e pessoa com quem me dava bem, disse-me quase taxativamente:
-- Oh Noronha. Nós necessitamos cá de gente mais moderna. Você é tenente bastante antigo e não sei onde o hei-de colocar. Não sei porque é que foi você o nomeado. Tenho de o deixar nas Informações do Comando. Vai à Base voar quando for necessário.
Depois, no seguimento de algumas trocas de impressões com quem tinha sido meu anterior Comandante da Base, relatei-lhe a minha conversa com o Comandante da Região Aérea em que estivera anteriormente colocado, acerca da minha intempestiva colocação em Angola, bem como a reacção do mesmo perguntando-me se “eu não queria ir defender a pátria”.
Quando, de seguida, contei também a este Comandante a desdita em relação à possível contratação na TAP, ele disse-me:
-- Agora já compreendo.
Por acaso, este Comandante tinha acabado de requisitar para a biblioteca dois livros sobre psicanálise, de Pierre Daco, acabados de ser publicados em francês e, depois de passar è reserva, tirou o curso de Direito.
Regressado de Angola, como não conseguia continuar na Faculdade de Direito porque não tinha bilhete de identidade civil para me matricular nem autorização que, como militar, me era negada, procurei o curso de Psicologia por ser dum Instituto Superior particular. Quando perguntei na Secretaria se necessitava de bilhete de identidade civil ou autorização militar, a empregada riu-se a bom rir e disse-me:
-- Aqui o que nós precisamos é de dinheiro para pagar as propinas. Identifique-se como quiser.
Ainda me lembro que essa chefe de Secretaria, logo que me aproximasse para pagar as propinas e me visse à procura do cartão com o número de aluno, dizia “1581” e apressava-se a preencher o recibo, rindo com gosto. À primeira vez, fiquei admirado, mas depois, fui-me habituando. Provavelmente, ela tinha ficado «traumatizada» com a minha pergunta disparatada acerca do bilhete de identidade e da autorização, seguida da minha cara de espanto perante a sua resposta. Assim eram os tempos antigos.

Mesmo a propósito deste curso, que seria muito útil para a Força Aérea, senti-me na necessidade de escrever uma carta ao Sub-secretário de Estado chamando «Senhor Inteligente» a um responsável superior hierárquico que tratava de tudo isto com uma ligeireza muito grande, o que me «rendeu» cinco dias de prisão!

A partir daí «fui-me completamente abaixo» a ponto de não conseguir estudar para o curso nem ser capaz de desempenhar as funções numa Direcção onde tinha sido colocado.
A minha insatisfação foi aumentando e piorando porque me sentia extremamente prejudicado em relação aos pilotos-aviadores que tinham tudo e nada deixavam para os outros a não ser o trabalho e as responsabilidades.
Os meus colegas, ou «camaradas» como eles diziam, de entrada na Força Aérea, eram capitães e os que tinham feito comigo o curso de promoção a capitão eram quase majores enquanto nós continuávamos como tenentes. Contudo, os serviços de responsabilidade eram executados por nós, «mais antigos», que substituíamos majores e tenentes-coronéis.
As promoções ficavam de tal maneira para eles e os serviços de responsabilidade para nós, que comecei a sentir-me como escravo numa roça dos Pil.Av. Naquela época, não podia dizer isto nem «pensar em voz alta» porque podiam perguntar-me se desejava «provocar uma subversão» da mesma maneira como me tinham perguntado anos antes se “eu não queria ir defender a pátria”.

A minha condição física e psicológica foi piorando até que, depois de muito tratamento psiquiátrico medicamentoso com um psiquiatra de orientação psicanalítica e que me dizia que eu deveria ter tido muitos conflitos com o meu pai, resolvi não seguir a medicação e «deixar as coisas andar».
O resultado foi uma Junta Médica ter de me considerar incapaz para o voo em 22 de Abril de 1974, o que me colocou na reserva.

A partir desta data, com uma pressão psicológica muitíssimo menor e muito mais disponibilidade de tempo, apesar de não ter ainda concluído o 1º ano do ISPA, consegui, ao abrigo da lei para os militares, terminar rapidamente o curso e seguir em frente como desejava. A minha tensão psicológica aliviou rapidamente sem quaisquer medicamentos, apesar de me ter sido diagnosticada uma neurose depressiva reactiva. Onde foram parar os aludidos conflitos com o meu pai? E a colite crónica de que sofri durante mais de quatro anos?

Lembrei-me também do mesmo aluno, que tinha feito o reparo em relação à minha má aceitação da psicanálise, ter perguntado se a imaginação orientada não poderia conduzir a um caminho perigoso e cheio de utopias.

Acho que um psicanalista poderia, tal como me aconteceu, querer atribuir as minhas dificuldades aos conflitos com o pai e não com a Força Aérea, com ou sem razão. Poderia também arranjar uma justificação para tudo, culpando a sociedade e desculpabilizando-me de forma a eu poder fazer qualquer disparate.
Na imaginação orientada, o próprio é confrontado com as suas dificuldades, que não tem de confessar a outra pessoa, como acontece na psicanálise o que pode incitar o psicanalista a fazer juízos de valor ou a dar opiniões. Também, como é difícil «despirmo-nos» perante os outros, o analisado pode omitir qualquer coisa que não lhe convenha revelar ou apresentar uma má imagem. Na imaginação orientada não é necessário esse «despir» em público. Cada um «despe-se» à medida que desejar e guarda para si o que não quiser revelar. Porém, pode lembrar-se de tudo, visualizar, analisar, raciocinar, planear, sem juízos de valor dos outros, acerca do bem e do mal. Pode também fazer os seus próprios juízos de valor com a ajuda que desejar do terapeuta, apenas com as informações gerais fornecidas por si próprio. O terapeuta pode colocar as hipóteses que achar mais convenientes como perguntas de reflexão, para serem questionadas pelo «paciente» e aceites ou rejeitadas por ele após análise e compreensão das mesmas.

Na bem delineada intervenção do oficial navegador já referido, senti que existia uma mágoa parecida à minha, mas talvez menor do que aquela que eu tinha sentido durante a minha permanência na Força Aérea, o que me fez lembrar várias outras coisas que me foram acontecendo ao longo da vida.

Na última parte da minha imaginação orientada vieram-me à memória o bom nível de comportamento dos oficiais da Marinha com quem privei bastante, dos oficiais da Força Aérea Espanhola que fui encontrando nas Canárias, dos disparates e saneamentos «estúpidos» e «inaceitáveis» de alguns «camaradas» feitos por alguns dos nossos outros «camaradas» logo após a «revolução», das tentativas de alguns «camaradas» quererem «trepar» à custa dos outros, dos prováveis «informadores» -- aparentemente honestos «por fora» -- que existiam na Força Aérea, além de várias outras coisas.

De qualquer modo, nunca consegui compreender a minha nomeação intempestiva, desnecessária e urgente para Angola no momento em que eu poderia ir para a TAP e continuar o curso de Direito!
Eram os tempos antigos que não interessa recordar mas aprender com eles a fim de não os repetir e mudar o futuro. Para isso serve a imaginação orientada. E, se for com um relaxamento profundo, ainda melhor.

Tudo isto provocou-me um certo alívio e uma compreensão melhor do aproveitamento que fiz com o ingresso no curso de Psicologia: consegui safar-me no meio da tormenta que me avassalava no momento. E lembrei-me subitamente da «Revolução dos Cravos» feita para evitar «os cardos» com os quais alguns estavam a ser picados, para dar a tudo isso uma coloração muito diferente da original. Os apregoados ideais anunciados por alguns bem intencionados «ficaram pelo caminho» mas, pelo menos, vimo-nos livres da PIDE e da Censura.

Foi bom ter assistido a este encontro que compensou largamente a minha ausência na Bênção das Pastas no ISMAT onde sou responsável pelas disciplinas de Psicologia Social e Psicopatologia na licenciatura em PSICOLOGIA.